A economia que arde sem se ver

A economia que arde sem se ver

 
Desolação. Com a cara lavada em lágrimas, Vítor Rodrigues, 53 anos, abraça um dos borregos que não morreu nas chamas. É produtor de leite para o fabrico do conhecido queijo da serra, mas, com o fogo, o seu rebanho de ovelhas ficou muito mais pobre. Já enterrou mais de 30 animais e quase todos os dias morre mais uma ou duas

Incêndios. Indústria e agricultura foram duramente atingidas. Milhares de empregos perdidos e populações inteiras destroçadas. Prejuízos podem chegar aos €3000 milhões
As chamas foram apagadas há quase duas semanas, mas ainda há um fogo que vai ardendo sem se ver por todas as aldeias e lugares do concelho de Oliveira do Hospital: uma espécie de ansiedade mortífera e silenciosa que consome tudo e todos. Olha-se à volta e o que se vê são os restos mortais de uma economia já de si frágil, mas agora de rastos. Literalmente reduzida a cinzas.

“Fiquei praticamente sem nada. Estes são os animais que sobram do meu rebanho. Mais de 30 estão enterrados acolá e, nesta vala, vou pondo as ovelhas que continuam a morrer, quase todos os dias”, soluça Vítor Rodrigues, 55 anos, lavado em lágrimas, enquanto aponta para um enorme buraco que abriu mais ou menos a meio do seu quintal, em frente à casa onde habita, perto de Bobadela (Oliveira do Hospital).

Produz leite para o afamado queijo da serra, mas, nos dias que se seguem, o que ainda resta da sua força anímica será encaminhado para a reconstrução do curral e também da própria casa, que não escapou às chamas. E depois? (chora compulsivamente) “Logo se vê. Estamos destroçados, mas o que a gente há de fazer? Só sabemos fazer isto.”
As alfaias arderam e o poder calorífico do fogo rachou o seu pequeno trator a meio. A devastação é total. Um dos seus filhos, emigrado no Sul de França, assim que soube dos incêndios meteu-se ao caminho e conduziu 12 horas seguidas para trazer um reboque cheio de palha para dar aos animais.

Por estes dias é praticamente impossível entrar num café, numa loja de comércio, num restaurante ou mesmo andar simplesmente pela rua e pelos campos sem que o tema venha recorrentemente à tona, quase como um veneno que tarda em se diluir.

Começam a fazer-se as primeiras contas e é fácil concluir que, em termos de impacto do fogo na economia, o pior ainda pode estar para vir, pois os trabalhos de reconstrução devem levar meses ou mesmo anos, o que pode significar desemprego, pobreza, abandono ou, provavelmente, emigração.

PREÇO DA MADEIRA CAI 30%
Só em Oliveira do Hospital já se fala em mais de €300 milhões de prejuízos, com fábricas reduzidas a cinzas, habitações calcinadas, florestas queimadas, vinhas e olivais totalmente devastados e entre cinco a oito mil ovelhas bordaleiras (do queijo da serra) mortas, além de milhares de outros animais que não resistiram às chamas. E este é apenas um dos quase vinte concelhos afetados pelos incêndios do dia 15 de outubro.

A Forestis, organização que representa 17 mil produtores florestais, garante que o preço da madeira já está a cair mais de 30%, em vários locais afetados pelos incêndios em comparação com o que vigorava antes da tragédia, pois toda a gente quer vender rapidamente para perder o menos possível. Numa conta feita muito por alto (ainda com poucos dados disponíveis), Rosário Alves, diretora executiva daquela organização, estima que os prejuízos globais dos incêndios possam oscilar entre os €2000 milhões e os €3000 milhões.
“Só não arderam as pedras”, conclui Vasco Campos, um dos homens mais procurados por estes dias, na zona centro do país. Está há 17 anos à frente de outra das maiores organizações de produtores florestais (a CAULE) e o seu telefone não para de tocar. Ou melhor, o seu telefone pessoal, o do seu gabinete — instalado nos arrabaldes de Santa Ovaia (Oliveira do Hospital) — e ainda mais um que lhe é trazido insistentemente pela sua secretária, enquanto tenta não perder o fio à meada da conversa intermitente que tenta manter com dois dos seus associados. Estão ali em busca do mesmo que muitos outros têm feito há mais de uma semana: informação. Novidades que os ajudem a combater o desespero e a ansiedade que sobressai em cada palavra que vão deixando cair para cima da mesa, à volta da qual as certezas não há meio de aparecerem.

“Quanto vale a nossa madeira? Onde é que a vamos guardar? Cortamo-la já ou esperamos até novas ordens? Quem manda ‘aqui’ é o Governo ou decide cada um por si? Quanto é que vamos perder, além do que já perdemos com o fogo?” As perguntas não são apenas estas e quantas mais se fazem mais sobem os níveis de stresse e de inquietação na pequena sala de reuniões da sede da CAULE.

“Não sei como vai ser, mas, se há dinheiro para as casas, para as fábricas e para a agricultura, também tem de haver dinheiro para a madeira”, sublinha Vasco Campos de forma enfática, tentando acalmar os seus interlocutores. “Não faço nada sem dinheiro público, nem que as árvores caiam para o chão.”

Certezas, por enquanto, apenas uma ou talvez duas: a quebra dos preços da madeira — segundo a Forestis — e a garantia de que se as árvores ardidas não forem cortadas dentro de três ou quatro meses, depois já ninguém as quer. Apodrecem e caem, tal como diz Vasco Campos.
“É dinheiro perdido e são anos e anos de trabalho para nada. Mesmo que agora arranque tudo e queira voltar a plantar floresta, se calhar só os netos é que um dia virão a beneficiar com isso”, acrescenta António Relvas, de 70 anos, empresário florestal de Vila Dianteira (Santa Comba Dão). Perdeu 100 hectares de eucaliptal, mas ainda alimenta uma réstia de esperança: conseguir vender a madeira que as chamas não pouparam.

O problema é que o desejo de António Relvas é partilhado por milhares de outros produtores espalhados por toda a região centro e também em algumas partes do Norte do país e, isso, significa uma coisa muito simples e, ao mesmo tempo, muito complicada: vai haver um excesso de oferta (como nunca houve em Portugal); e os preços vão cair por aí abaixo se nada se fizer para travar essa tendência.

“Só vejo aqui uma solução: o Governo comprar a madeira toda, garantir um determinado preço ao produtor, e depois fazer a gestão dos stocks”, nota o dirigente da CAULE. “É radical? É”, mas a situação também é excecional.
Mas a teia de complicações pode não ficar por aqui. Para a própria indústria transformadora, se não houver uma gestão racional dos stocks anormais de madeira que agora podem vir a desaguar no mercado, dentro de poucos anos poderá ser confrontada com a inexistência de matéria-prima em território nacional — ou apenas com uma percentagem baixíssima face às suas necessidades. Não haverá outra saída que não o reforço das importações, contribuindo fortemente para o desequilíbrio da balança comercial.

Vasco Campos lembra que “estamos perante uma situação nunca vista neste sector de atividade em Portugal. E, na verdade, ainda andamos todos a olhar uns para os outros, meio atordoados, sem saber como iremos sair de todo este imbróglio”.
IMPACTOS
VINHO DO DÃO
A vindima deste ano ainda escapou
O pior vai ser a campanha de 2018/19, pois perderam-se muitos hectares de vinha. Alguns agricultores ainda acreditam no poder regenerador da natureza, mas não há garantias de que as videiras mais antigas possam ter resistido interiormente ao fogo ou que tenham ficado apenas chamuscadas na casca que as envolve. Para as vinhas sobreviventes ao fogo, se a próxima poda tiver de se fazer mais em baixo (nos ramos) do que é costume, a recuperação será ainda mais lenta.

INDÚSTRIA
Cenário de guerra
Aço e vidro derretidos, ferro retorcido, chapas disformes, máquinas calcinadas e muita matéria-prima reduzida a cinza compõem o autêntico cenário de guerra nas zonas industriais dos concelhos mais afetados. Quando se observa de um ponto mais elevado parece que estamos a olhar para o resultado de um bombardeamento. Devastação total.

QUEIJO DA SERRA
Menos animais, 
menos leite para a produção
Ainda é cedo para falar de números finais, mas as estimativas da ANCOSE (Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela) apontam para uma perda de 5000 a 8000 mil ovelhas bordaleiras, nos vários concelhos onde se produz o leite para o fabrico do queijo da serra — num universo de 70 mil animais. Rui Dinis, presidente daquela organização, pede ponderação na divulgação de números, até porque ainda há muitos animais a morrer com problemas respiratórios. Uma coisa é certa, segundo este responsável: “Os nossos associados já estão a trabalhar para recuperar das perdas e, agora, ainda com mais convicção.”

MEL
Milhares de colmeias queimadas
Não só arderam os pastos e as plantas onde as abelhas se alimentavam, como ainda milhares de colmeias que lhes serviam de abrigo. As abelhas que não morreram no fogo podem vir a morrer de fome. Resultado: quebras — ainda imprevisíveis — na produção de mel e problemas relacionados com a polinização das plantas.

AZEITE
Galheteiros podem custar mais a encher
Como se não bastasse a seca extrema prolongada, especialmente sentida no Centro e Norte do país, as chamas vieram dar a machadada misericordiosa final em muitos dos olivais daquelas regiões. Há quem fale em perdas totais, com olivais integralmente dizimados pelo fogo (particularmente na região centro) e um pouco menos na zona de Trás-os-Montes. Há quem diga que o preço do azeite pode começar já a subir, mas ainda falta ver como ficará a produção no Alentejo, que já assegura a maioria esmagadora da produção nacional de azeite.
http://expresso.sapo.pt/economia/2017-11-01-A-economia-que-arde-sem-se-ver

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