O impasse sobre a adoção da tabela de preços mínimos para o transporte rodoviário de cargas traz novas nuvens de incertezas para o agronegócio, que já estava impactado com os 11 dias de greve dos caminhoneiros. A interferência do governo Michel Temer, que adotou a medida para encerrar a paralisação dos caminhoneiros enfureceu o setor produtivo do país, da agricultura, passando por serviços e até a indústria.

– É uma afronta para a livre negociação. Estão tentando extinguir a lei da oferta e da procura.

E não funciona, na questão do frete, há muitos caminhões para pouca carga. É preciso adequar a oferta à demanda – diz Nestor Freiberger, presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

Os segmentos que dependem de novos carregamentos – incluindo o mercado de grãos – simplesmente paralisaram. Em outras categorias, compras e entregas de produtos, como insumos, foram afetadas. Apenas quem possui frota própria ou já tinha acordos acertados anteriormente está conseguindo passar ileso.

Novos carregamentos estão comprometidos

A atual situação atinge diretamente a atividade de empresários ligados à Associação das Empresas Cerealistas do Rio Grande do Sul (Acergs).

– Há dificuldade enorme. Teremos problemas para garantir o fertilizante, que é o que volta do porto. E estamos há um mês sem transportar soja, arroz, milho e trigo – alerta Vicente Barbiero, presidente da Acergs.

Na produção de leite, as entregas não cessaram, mas há dificuldade com novos contratos, relata Alexandre Guerra, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat).

– O acerto com o transportador é mensal e estamos tentando administrar – detalha o dirigente.

Com o impasse, a indicação é não contratar frete pelos valores definidos pela medida provisória.

– Estamos orientando os associados a não aceitarem a tabela pela dificuldade em repassar aumento de preços – ressalta o presidente da Asgav.

Sem uma solução, as entidades aguardam a Justiça, onde o número de ações se multiplica de Norte a Sul, incluindo a da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), que alega interferência na livre negociação, mesma justificativa usada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

Na quarta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux havia dado prazo de 48 horas para o governo se manifestar sobre o tema. Na quintafeira, Fux havia suspendido todas as ações que contestavam a resolução da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Longas distâncias, custos maiores

O aumento do valor do frete afeta mais o transporte de longas distâncias. Antes da adoção do preço mínimo, Nestor Freiberger, presidente da Asgav, conta que o transporte de milho de Mato Grosso ao Rio Grande do Sul representava em torno de 40% do custo total. Com a tabela, o percentual subiria para 60%.

– O aumento impactará no preço final do produto, mas há dificuldade em razão da retração do poder de compra. Nas exportações, é ainda mais complicado,

o importador não aceitará pagar mais caro – conta Freiberger.

A indústria de leite, juntamente com a de frango é a mais sensível, pois já enfrentava uma série de problemas. O economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz, lembra que, enquanto a indústria de leite estava debilitada pelo baixo preço ao produtor, a de frango foi atingida pelo embargo da União Europeia, taxação da China e mortandade dos animais em razão da falta de alimentos pela greve.

https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/campo-e-lavoura/noticia/2018/06/impasse-no-transporte-gera-novas-incertezas-no-agro-cjigep26r0gtq01qob0kfwrtv.html