Argentina: oportunidade ou crise?

Argentina: oportunidade ou crise?

Terminou outra Mercoláctea – evento do setor leiteiro realizado anualmente na Argentina. Como todos os anos, uma boa desculpa para falar cara a cara com aqueles que são referíªncia da cadeia. Como cada míªs de maio, a rural de San Francisco reflete de maneira honesta, ou seja, para o bem ou para o mal, o animo, as intenções de investir e as expectativas dos produtores de leite, prestadores de serviços e industriais do setor leiteiro argentino. Esses últimos, assim como nas outras versões do evento, brilharam por sua ausíªncia.

No entanto, o que a priori parece com um alerta, também pode ser uma oportunidade. Pelo menos, é assim que pensa Alejandro Sanmartino, organizador, que destacou que a situação é complexa em um marco de um mundo muito volátil e que se modifica. “í‰ necessário se acostumar com o fato de que as condições estão mudando permanentemente e isso significa oportunidades. Não estamos nem melhor nem pior, mas somente em um cenário distinto ao que vivemos anteriormente”.

Para Sanmartino, a Argentina veio de um ano muito bom, com margens interessantes, e isso gerou uma produção leiteira superior a 13%, exportações acima de 38% (umas 400 mil toneladas equivalentes a US$ 1,7 bilhão, superando em volume a carne, tendo exportado um litro de cada quatro produzido). “O balanço é muito bom e 2012 começa com rastros de bons í­ndices produtivos, mas com um mercado mundial onde os 5 grandes (Nova Zelí¢ndia, Austrália, Estados Unidos, Europa e Argentina) tíªm maior oferta que gera uma queda nos preços. í‰ um momento em que se espera que o preço melhore no segundo semestre”.

Para Sanmartino, o problema é de fundo. “A Argentina deve mudar sua estrutura industrial. Nós temos uma matriz elaboradora de queijos, quando o mundo demanda leite em pó. Temos uma capacidade de secagem muito limitada”. Além disso, criticou o cenário polí­tico: “Precisamos de previsibilidade de negócios. O diagnóstico é claro, o questionam a Mesa Nacional de Produtores de Leite (MNPL) e a indústria, porque se requerem investimentos milionários e, em uma Argentina com certas inseguranças, isso está complicado. Temos crescido graças aos investimentos nos anos 90. Agora, falta outra onda de crescimento, temos que aumentar um milhão de toneladas por ano de secagem”.

Com relação í s novidades da exposição, ele destacou que a atividade leiteira é tão rica que a temática para crescer nunca acaba. “Por isso, a capacitação nas tecnologias existentes para aproveitar a queda nos preços é vital”.

Para o médico veterinário, Mariano Peralta, da Vetifarma, melhorar o manejo do macho holandíªs apresenta uma oportunidade para aproveitar o bom preço da carne a favor do leite. “No meu caso, referi-me í s pautas fisiológicas, nutricionais e de manejo, tanto para a recria como para a terminação”. Segundo ele, a falta de eficiíªncia de conversão é algo que se tem criticado sempre no novilho holandíªs, mas por meio do manejo nutricional e da taxa de engorda (modificando o peso do abate) pode-se obter um animal que converte relativamente bem, que é viável economicamente e que produz carne de qualidade.

“Também há normas de manejo, como o uso de fibra e proteí­na na recria, sobretudo para aquelas fazendas leiteiras que podem agregar uns quilos a mais ao bezerro. Dessa maneira, a venda dessa carne invernada pode ser uma forma de diversificar a produção de uma fazenda leiteira”.

Segundo Peralta, há uns anos que, pelo alto preço da invernada, todos tendem a agregar-lhe uns quilos a mais. O problema é a infraestrutura e o desconhecimento de algumas dessas pautas baseadas nas caracterí­sticas próprias da raça. “Não se pode fazer com o holandíªs o que se faz com as raças brití¢nicas”.

Com relação ao panorama geral, ele disse que se vem de 7 anos muito ruins, seguidos pelos dois últimos muito bons e agora estamos entrando em uma etapa que não é mais rentável, mas onde é possí­vel produzir leite de maneira eficiente e fazer negócio. í‰ por isso que ele enfatiza a produção de carne na fazenda leiteira, um tema que não é pequeno no faturamento global da empresa leiteira. “Assim, em um contexto onde os preços sobem e o leite segue fixo, os produtores de leite podem abrir uma nova possibilidade, ainda que nunca se pode perder a visão global da produção leiteira do estabelecimento como meta final”.

Para o engenheiro, Fernando Preumayr, o setor leiteiro argentino sempre está vivendo momentos especiais. Somam-se os ciclos, os negócios, as pessoas. í€s vezes, só í s vezes, consegue-se alinhar todos na mesma direção.

“A gente sofre os efeitos de tudo isso. Há grandes dificuldades para conseguir gente que queira trabalhar na fazenda leiteira, já que se trata de uma atividade que não gera qualidade de vida para que as pessoas queiram fazer isso. Resolver isso depende do produtor em parte, mas há questões ligadas í  infraestrutura que não são resolvidas a ní­vel de paí­s e isso tem uma influíªncia grande”.

Para ele, que é especialista da Universidade Austral, a produção é feita pelas pessoas e existem queixas generalizadas. “Porém, além de se queixar, é necessário fazer algo, trabalhar na mesma medida em que fazemos em temas como nutrição ou outros”.

No tema dos recursos humanos, há muitas coisas que podem ser feitas. “A primeira está relacionada ao plano ligado ao campo e sua gente; depois, a ní­vel social (com as relações com outros produtores) e, por último, a ní­vel polí­tico. Uma coisa não elimina a outra. í€s vezes, ficamos na queixa e não fazemos nada nem sequer no primeiro ní­vel”, destacou ele. Finalmente, ele disse que a situação está se complicando, os números diminuem e “ao diminuir os números, tudo se pressiona e, quando isso ocorre, a gente fica no meio, é difí­cil ter uma boa equipe fazendo um mau negócio”.

A reportagem é do www.campolitoral.com.ar

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