Capacitando produtores, Nestlé mira o mercado de leite orgânico no Brasil

secagem

No início desta semana, a Nestlé promoveu um encontro para apresentar e divulgar a sua inserção no mercado lácteo orgânico do país em 2018. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o mercado de produtos orgânicos, desde 2009, cresce em média 25% ao ano. Os números apontam um mercado atualmente em torno de R$ 2 bilhões anuais, apesar de ser um setor pouco auditado. Desse montante, 80% do mercado é concentrado nos produtos in natura, especialmente hortaliças. Nos mercados mais desenvolvidos, como EUA e Europa, a evolução do setor leva a uma participação maior dos produtos processados.

Nesse segmento, o leite orgânico e seus derivados também ganham espaço, mas a demanda no país é maior do que a disponibilidade. Nos Estados Unidos (EUA), os lácteos representam 16% de todo o mercado de orgânicos e na Europa, 30%, enquanto no Brasil esse mercado é incipiente.

Buscando desenvolver a produção de leite orgânico, a Nestlé fez uma parceria pública privada e contará com o auxílio da Embrapa Pecuária Sudeste, Fundação Mokiti Okada e IBD Certificadora.

Mas afinal, o que é leite orgânico?

Para o leite ser orgânico ele deve atender todas as exigências descritas na instrução normativa 46, tais quais:

– o pasto deve ser manejado sem a utilização de nenhum tipo de adubo químico ou agrotóxicos; a alimentação dos animais deve ser feita em sua maioria por alimentos orgânicos com a possibilidade de complementação com alimentos não OGM; o tratamento dos animais deve ser feito com o uso de homeopatia e fitoterápicos, salvo exceções onde antibióticos e tratamentos alopáticos são necessários para evitar sofrimento do animal; não são permitidos sistemas de confinamento; a fazenda deve passar por auditorias no mínimo anualmente.

No evento, André Novo, Chefe-Adjunto de Transferência de Tecnologia, comentou que ainda há um distanciamento entre os sistemas produtivos e a fronteira de conhecimento. “No Brasil, a produção de leite no geral ainda é pouco intensiva e um salto rumo à tecnologia é necessário para as propriedades melhorarem as suas estruturas e conhecimento”. Na visão dele, um dos desafios da pecuária é a sustentabilidade. “A demanda dos consumidores mudou. Acreditamos que a área de pesquisa & desenvolvimento deve estar aliada às novas tendências de consumo”, pontua.

André Novo - Embrapa - leite orgânico

André Novo

Ele relembrou que uma das principais experiências com relação ao leite orgânico veio da Fazenda Nata da Serra, do produtor Ricardo Schiavinato. Ela foi a primeira propriedade orgânica do Balde Cheio, permitindo um aprendizado e tanto para a Embrapa e para o pecuarista um vez que, até então, aplicar as soluções de pesquisas era algo restrito apenas às propriedades convencionais. O principal desafio foi a substituição dos métodos tradicionais, como as adubações químicas, por compostos orgânicos e os medicamentos alopáticos por fitoterápicos ou homeopáticos, mantendo a alta produtividade. Com o passar do tempo, Schiavinato teve um salto na produção e a sua propriedade passou a ser referência para as demais unidades demonstrativas do projeto pelo uso de técnicas sustentáveis, como a atual autossuficiência no uso de energia por meio de painéis solares.

“Queremos ser cada vez mais eficientes no uso dos recursos naturais e fatores de produção. Inclusive, já estamos iniciando uma pesquisa na Embrapa sobre o leite carbono neutro. Conforme aumentamos o conhecimento, mas perto do ideal nós chegamos”. Para ele, os desafios da produção sustentável são: manejo de resíduos, pegada hídrica dos sistemas de produção, qualidade da água, nutrição e agricultura de precisão, lucro e ganhos sociais (qualidade de vida), elevação da matéria orgânica no solo e estoque de nutrientes, etologia e conforto animal. “Existem muitos pontos comuns entre a produção convencional eficiente a pasto e a produção sustentável. A proximidade entre a pesquisa, a extensão rural e o sistema produtivo são as saídas para o desenvolvimento sustentável da pecuária leiteira”, completou.

O contexto e o plano de trabalho para o leite orgânico

Taissara Abdala Martins, Gerente de Desenvolvimento de Qualidade e Fornecedores da Nestlé, apresentou alguns dados da área de lácteos da empresa e ressaltou que a preocupação com a alimentação cresce mundialmente, inclusive no Brasil.

Taissara Abdala Martins

Taissara Abdala Martins

Segundo ela, a produção de leite orgânico em larga escala no Brasil é inexistente ou insignificativa. “A região de Araraquara/SP tem um histórico de empresas que iniciaram no setor, mas não deram continuidade. Também não existe um teste de detecção de leite ‘não orgânico’. Toda a constatação/certificação é por auditoria. O nosso maior desafio é a necessidade de desenvolver duas cadeias: a do leite e a dos grãos. Esta última, em baixíssima escala no Brasil”.

A previsão é que o projeto seja longo e leve de 21 a 24 meses para a conversão do pasto, dos animais e a adequação da estrutura das fazendas. A Nestlé fará um contrato de 36 meses com os fornecedores, para a produção piloto de 15 a 20 millitros diários, que serão processados em Araraquara/SP. “Para atingir a nossa meta, precisamos de aproximadamente 50 fazendas produtoras. Hoje temos 11 produtores (6 mil litros/dia) contratados e estamos iniciando a cadeia praticamente do zero. Quando anunciamos aos produtores que produziríamos orgânicos, muitos se candidataram, mas, fizemos um crivo com a ajuda da certificadora parceira”.

O apoio da Nestlé no desenvolvimento da cadeia leiteira orgânica envolverá assistência técnica aos produtores já convertidos e em conversão pela Mokiti Okata, subsidiada pela Nestlé; auxílio na compra de ração e silos para armazenamento; contrato de 36 meses com bônus-fidelidade crescente; pagamento de leite orgânico mesmo aos fornecedores em conversão; projetos de bem-estar animal (responsible sourcing) e boas práticas na fazenda.

“O preço pago aos produtores de leite orgânico será particular de cada contrato, pois isso também dependerá da qualidade da matéria-prima”, explicou. Para Taissara, a assistência técnica será o coração do projeto. A princípio, a Nestlé trabalhará apenas com leite UHT orgânico.

Certificação do leite orgânico

Alexandre Harkaly, diretor executivo do IBD, comentou que a certificadora está contribuindo para apoiar no entendimento dos processos. Ele relatou que hoje são poucas fazendas leiteiras orgânicas certificadas no Brasil. “No meu ponto de vista, esses produtores são heróis, já que precisaram ser autodidatas para desenvolverem seus negócios. Em função da Nestlé estar entrando no ramo, o número de produtores vai crescer”, explicou. Harkaly expôs ao público um comparativo entre os tipos de certificação existentes no varejo: a) Não orgânicos, mas com apelo natural e alguns ingredientes orgânicos; b) Sustentável; c) Orgânicos; d) Biodinâmico.

Alexandre Harkaly, do IBD

Alexandre Harkaly, do IBD

“Os consumidores ainda confundem essas certificações. O importante é esclarecer que há um mercado demandante crescente e a estruturação da cadeia será impulsionada por essa tendência, aumentando a disponibilidade dos produtos. No Brasil, o crescimento desse segmento é muito expressivo”, confirma. Ele acredita que as pessoas estão tendo acesso à informação e sabem o que contribui ou não com a saúde.

Propriedades fornecedoras de leite orgânico

Uma das propriedades fornecedoras de leite orgânico para a Nestlé será o RecantoSS, localizado em Itirapina/SP e pertencente a Claudinei Saldanha Junior. Ele já trabalhou anteriormente com outras culturas e, desde 2005, com a ajuda da Embrapa e tecnologias, passou a produzir leite utilizando 20 ha com as raças Girolando, Holandês, Jersey e Sueco Vermelho. A propriedade possui no total 26 ha e desde 2013 Claudinei produz leite orgânico. A parceria com a Nestlé começou em julho de 2016 e um dos principais desafios do RecantoSS é a presença de produtores rurais convencionais nas redondezas. Uma das saídas nesse caso é a utilização das barreiras biológicas.

Claudinei Saldanha Junior

Junior possui 43 vacas adultas, sendo que 37 estão em lactação. “Uma parte da recria é realizada fora da propriedade. A nossa produção contabiliza 550 litros/dia. Para quem produz orgânicos, os carrapatos e a menor produção de volumosos pode ser um problema, mas, assim que o sistema se equilibra, o rendimento retorna ao que era antes. Hoje já estamos praticamente equilibrados e chegando na nossa produção de leite da época convencional. Produzíamos 17 litros/dia, na conversão fomos para 14 litros e, agora, já voltamos aos 17”, comemora.

RecantoSS

A propriedade utiliza pastejo rotacionado com os capins grama estrela, mombaça e jiggs, todos sobressemeados com azevém e aveia no inverno. “Com os orgânicos, eu agrego valor na minha produção. O nosso custo de produção cresceu entre 30-40%, porém, com margens maiores. Também, no meu caso, a homeopatia funciona melhor do que os medicamentos convencionais, auxiliada pelas mudanças de manejo. Um bom produtor de leite convencional também será um bom produtor de leite orgânico e não ‘sofrerá’ com a conversão”, ressalta. Com relação à mastite, o produtor só trata os animais que apresentam CCS (Contagem de Células Somáticas) alta.

RecantoSS

A outra produtora parceira do projeto é Maria Beatriz M. C. Dotta e Silva, que há oito anos fornece leite para a Nestlé. A sua propriedade, Fazenda Recreio, está localizada em São Carlos/SP e se converteu para a produção orgânica em maio deste ano. A produção é de 700 litros/dia (média de 16 litros/cabeça) e ao todo, o rebanho é composto por 130 animais, sendo 53 em lactação. Os capins utilizados são tifton, mombaça, braquiária e napier. A cana-de-açúcar também é um dos ingredientes da dieta do plantel.

Fazenda Recreio

Bia, como é comumente chamada, decidiu apostar nos orgânicos pois acredita na filosofia do negócio e na demanda crescente. “Eu já trabalhava com homeopatia antes de me converter. A minha CCS é de 200-220 células/mL e minha CBT de 7.000 ufc/mL. Meus animais são da raça Jersey, Jersolando e Holandês e pretendo alcançar 1.000 litros/dia com 70 vacas em lactação”.

A expectativa de Bia é que o projeto sirva de exemplo para outros produtores. “Antes de entrarmos de cabeça nos orgânicos, meu filho, que é economista, fez um estudo complexo e enxergamos a possibilidade de um retorno muito positivo. Além disso, já começamos a notar as melhorias da biodiversidade com o retorno de algumas espécies de pássaros e outros animais”.

Fazenda Recreio

A Fazenda Recreio possui uma topografia que favorece as barreiras biológicas, Mata Atlântica preservada e um corredor ecológico.

Fundação Mokiti Okada

A Fundação Mokiti Okada atualmente é uma das principais instituições relacionadas aos orgânicos e tem um escopo de atividades bastante variado, atuando desde pesquisa & desenvolvimento, até assessoria e consultoria em busca de soluções sustentáveis na agricultura e pecuária.

Luiz Carlos Demattê Filho, Coordenador Geral do Centro de Pesquisa Mokiti Okada da Fundação Mokiti Okada-MOA, esclareceu que a fundação foi pioneira em várias concepções de ambiência animal e na produção de ovos e frango sem o uso de antibióticos. “A empresa é vanguardista e recebe visitas do mundo todo. O nosso objetivo é fazer com que os produtores se sintam seguros, mostrando a eles que a produção orgânica funciona sim. Falta conhecimento e a divulgação de experiência positivas”.

Luiz Carlos Demattê Filho

Luiz Carlos Demattê Filho

A fundação, que totaliza 228 trabalhos científicos publicados, tem vários projetos em vigência. O Projeto Milho é um deles e tem o intuito de formar e fortalecer a cadeia de suprimentos de grãos orgânicos e não transgênicos por meio de pesquisa multidisciplinar e acompanhamento dos produtores e transferência de conhecimento. Já a consultoria técnica de transição do convencional para o orgânico do projeto Nestlé, iniciou as atividades em março de 2017 e visa auxiliar os produtores nas questões agronômicas, zootécnicas e sanitárias.

“A Mokiti Okada orientará as decisões rotineiras e estratégicas no período de transição do solo, das culturas e dos animais para a produção orgânica. Faremos um planejamento das propriedades nas áreas de produção de volumosos, estrutura do rebanho e potencial de cada uma delas, inserindo-as em um novo contexto, conforme legislação vigente. Também, acompanharemos e auxiliaremos no plano de manejo e certificação do IBD de cada propriedade”, disse Demattê.

Serão implantados controles zootécnicos e econômicos/financeiros, objetivando a eficiência dos sistemas. “Vamos capacitar os produtores e os colaboradores. A nossa região está se tornando referência na produção orgânica já que conta com a Toca Orgânicos (Itirapina/SP), Korin (Ipeúna/SP) e Yamaguishi Orgânicos (Jaguariúna/SP). Com os incentivos da Nestlé, os orgânicos se consolidarão mais ainda no país”, finalizou.

 

https://www.milkpoint.com.br/industria/cadeia-do-leite/giro-de-noticias/capacitando-produtores-nestle-mira-o-mercado-de-leite-organico-no-brasil-105948n.aspx

One Comment;

  1. Thiago said:

    A única coisa que eles omitiram é que o crivo era o pagamento de uma taxa para que então a gerente aprovasse a entrada no programa. Meu pai foi procurado e nos ofereceram parceria e em troca teríamos que pagar “luvas” dissemos não pois não compactuamos com corrupção.

*


*

Related posts


Top