Governo prevíª prejuí­zos de até R$ 7,7 bilhões se não chover

Governo prevíª prejuí­zos de até R$ 7,7 bilhões se não chover na Bahia

Seca vai afetar entre 20% e 40% da produção agrí­cola do estado este ano e prejuí­zo no PIB pode chegar a R$ 7,7 bilhões, de acordo com estudo realizado pela Secretaria Estadual de Planejamento (Seplan). Já chega a 2,5 milhões o número de pessoas afetadas no estado

Seu João e dona Maria plantaram, mas não chove há cerca de seis meses. Com a estiagem, ambos não colheram. Sem o lucro da colheita, deixaram de comprar no comércio da cidade. Sem a grana deles, os lojistas faturaram menos.

Multiplicado pelos 2,7 milhões de joões e marias da Bahia em seca, a falta de água em 239 municí­pios do estado vai intensificar um outro tipo de sede: a de dinheiro. No melhor dos cenários, o impacto do fení´meno na economia baiana será de R$ 3,8 bilhões a menos em 2012. No pior, 7,7 bilhões.

Os números fazem parte de um levantamento concluí­do recentemente pela Superintendíªncia de Estudos Econí´micos e Sociais da Bahia (SEI) – vinculada í  Secretaria Estadual do Planejamento (Seplan).

Nele, é feita uma radiografia dos prováveis efeitos da seca sobre a economia baiana neste ano, com projeções para tríªs cenários baseados em dados dos 205 municí­pios mais afetados pela estiagem. Além do melhor e do pior, há um terceiro panorama, chamado no estudo de moderado, cuja estimativa de perda é de R$ 5,7 bilhões.

De acordo com o coordenador de Acompanhamento Conjuntural da SEI, Luiz Mário Vieira, os cenários levam em conta o “bom humor” do clima. “O (panorama) mais otimista tem como perspectiva a chegada das chuvas (nas regiões atingidas) ainda em maio ou em junho. O moderado, a partir de agosto. E o pessimista, em outubro ou novembro, quando se completaria o ciclo de um ano de seca”, explica o técnico. Contudo, independente de datas, as perdas já são consideradas irreversí­veis.

Sobretudo, porque a seca prejudicou a primeira safra agrí­cola, popularmente conhecida como safra de São José, em referíªncia ao dia do santo, 19 de março, quando os agricultores do Nordeste costumam plantar para colher no perí­odo das festas juninas. Segundo a crença difundida na região, se chover nesse dia, não vai faltar água nos próximos meses. Mas a água, benta para os plantadores, não caiu dos céus na hora esperada.

Agropecuária
Como consequíªncia direta da seca, a SEI prevíª que as perdas vão variar de 20% a 40% da produção agropecuária do estado este ano. O  que, na Bahia, vai refletir nos resultados do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos. Para este ano, a estimativa do governo, antes da seca, era de um PIB em torno de R$ 186 bilhões. Com a ocorríªncia do fení´meno, a redução ficará entre 2,06% e 4,12%.

“Evidentemente, teremos uma perda grande na agricultura”, admite o secretário do Planejamento, José Sérgio Gabrielli. No estudo, obtido com exclusividade pelo CORREIO, estão listadas também as regiões e municí­pios onde tais prejuí­zos serão maiores. Todos tíªm em comum uma caracterí­stica: neles, mais de 30% do PIB é dependente da agropecuária. Para piorar, a produção agrí­cola dessas cidades é fundamentalmente baseada em um só tipo de lavoura.

No ranking elaborado pela superintendíªncia, são sete as cidades que terão as economia afetadas por conta da crise em suas principais culturas agrí­cola: MucugíªÂ  e Ibicoara (batata); Barra da Estiva e Lajedo do Tabocal (café); Bonito (feijão); Adustina (milho); e Dom Basí­lio (maracujá).  Já em relação á população, o estudo elenca 15 municí­pios proporcionalmente mais afetados. A lista leva em conta locais onde 100% da população sofre com a seca.

Cascata
Outra consequíªncia da seca, segundo o levantamento da SEI, será na economia urbana das cidades atingidas. Num cenário otimista , o impacto nas localidades será de 10% no setor de comércio e serviços. No moderado e no pessimista, o prejuí­zo será de 15% e 20%, respectivamente. A conta é simples e tem como base a cadeia comercial de pequenas cidades.

“Sem o lucro gerado (no campo), o que seria gasto além da subsistíªncia, deixa de entrar na conta”, afirma Vieira, que coordenou o estudo. Assim, o comerciante local não verá a textura da grana do vestido para Maria e do sapato para João. Para Vieira, o faturamento de bens como alimentos, bebidas, vestuário e eletroeletrí´nicos será o maior prejudicado.

Precaução
Segundo Gabrielli, o estudo foi pedido í  SEI depois que os efeitos da seca, cuja ocorríªncia é histórica no Nordeste,  começou a ganhar corpo. E por que não antes, como forma de precaução? “Os ciclos da seca são longos. Vocíª sabe que vai ter e que será entre 20 e 26 anos. Não é como a neve, que se sabe que cai todo o ano”, justifica, o que é rebatido por especialistas.

Segundo o secretário, o estudo servirá para ações no pós-seca,  bem como para direcionar investimentos e linhas de crédito para os joões e marias, que, assim como os governos, esperavam uma chuva que não chegou.

Um terço da produção de leite já foi afetado
Os prejuí­zos não ficaram só na lavoura. A pecuária também foi muito prejudicada. Segundo dados da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), a produção de leite  já apresenta uma queda aproximada de um terço, o que representa cerca de 1,5 milhão de litros por dia.

Uma situação grave, se considerado que mesmo antes da seca, a Bahia já não era autossuficiente em leite. “Produzimos cerca de 1,2 bilhão de litros por míªs, mas consumimos 1,6 bilhão. A Bahia precisa importar leite”, conta o diretor de inspeção da Agíªncia Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), Adriano de Sá Bouzas. E isso já afeta a indústria de laticí­nios.

Na região de Ipirá, por exemplo, a captação de leite da Valedourado caiu de 100 mil para 18 mil litros por dia. Já em Irecíª, o dono da Valpadana, maior fábrica de iogurtes, manteiga e leite pasteurizado da região, Eduardo Chaves, conta que a produção já começou a cair. “Já estamos comprando 70% menos leite e o custo de produção aumentou muito”. Segundo ele,  está mais barato comprar leite em pó de outros estados para reidratar do que continuar comprando dos poucos produtores que restam.

“O carro que antes rodava pra pegar 5 mil litros de leite, hoje roda a mesma coisa pra pegar 1 mil”. A situação da pecuária de corte não é diferente. A Faeb estima que em torno de 90 dias, as pequenas cidades  baianas  vão começar a sentir sinais de desabastecimento de carne bovina. Criador da região de Irecíª, seu José Cardoso conhece a situação de perto. “O gado não se alimenta, fica fraco e morre. Já perdi uns 30, 40 bois. O que sobrou estou levando pra longe”, conta.

E, mesmo que comece a chover amanhã, a situação não vai se normalizar tão cedo. í‰ o que explica o gerente de programas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Francisco Benjamin. “O gado vai levar tríªs, quatro meses para engordar de novo. Depois tem os nove meses de gestação e, só aí­ é que começa a dar leite de novo”. Segundo a Faeb, situação semelhante ocorrerá com o gado de abate, já que para evitar perder os animais, muitos pecuaristas acabaram abatendo-os antes do tempo.

Crédito emergencial não é empréstimo, diz superintendente do BNB
O crédito emergencial foi uma medida anunciada pela Secretaria da Agricultura (Seagri), em parceria com o Banco do Nordeste (BNB), para amenizar o prejuí­zo dos produtores rurais afetados pela seca. No entanto, os trabalhadores tíªm se queixado da demora e da burocracia na hora de conseguir o crédito. “Não é só ir lá e pegar o dinheiro, precisa fazer um projeto, que tem que ser aprovado, e esse processo burocrático leva 20, 30 dias”, diz  o gerente de programas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Francisco Benjamin, que convive  com a dificuldade dos agricultores.  “O cara que precisa de R$ 300 para contratar um caminhão-pipa para salvar o gado precisa para agora, não dá pra esperar”, critica. Procurado pelo CORREIO, o superintendente do BNB, Nilo Meira, lembra que, antes de tudo, o crédito emergencial é um financiamento.  “Não é um empréstimo, que vocíª pode usar no que quiser. Tem que dizer onde pretende utilizar o dinheiro”. Segundo ele, nos próximos dias, um assessor de crédito vai visitar as comunidades para elaborar essas propostas para pequenos produtores (que produzem até R$ 6 mil por ano).

Feito isso, o crédito de até R$ 2,5 mil será liberado em até cinco dias. Esse também é o prazo para os agricultores familiares que recebem até R$ 80 mil por ano. Só que estes precisarão procurar a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário (EBDA) para elaborar seu projeto, antes de tentar o crédito de até R$ 12 mil. â€œí‰ um projeto simplificado, onde se lista o que se pretende realizar, a receita do empreendimento e o que sobra”.

Com informações da repórter Priscila Chammas

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