Yanaguizawa: Queda no preço do leite reduz poder de compra do produtor

Sergio De Zen e Wagner H. Yanaguizawa: Queda no preço do leite reduz poder de compra do produtor

Preço do leite recebido pelo produtor gaúcho acumula desvalorização de 13,2% desde janeiro
A demanda enfraquecida na ponta final da cadeia e a maior oferta de leite no campo, decorrente do avanço do período de safra, têm pressionado a receita do pecuarista no Rio Grande do Sul, de acordo com levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). Com isso, o poder de compra do produtor se reduziu nos últimos seis meses, o que afeta diretamente a tomada de decisão quanto a investimentos.
A relação de troca entre o concentrado de 22% de Proteína Bruta (PB), principal insumo da atividade leiteira, e o preço recebido pelo produtor, nos últimos seis meses, piorou em 47,4%. Em março, eram necessários 22,9 litros de leite para comprar um saco de ração, ao passo que, em agosto, essa produção se elevou para 33,9 litros. Com relação ao diesel, no terceiro mês do ano o produtor precisou de 2,4 litros de leite para adquirir um litro do combustível, e no fechamento de agosto, o valor subiu para 2,7 litros, redução de 10,8% no poder de compra.
O resultado está atrelado à diminuição da receita. O preço do leite recebido pelo produtor gaúcho em setembro teve redução de 6,2% frente a agosto, fechando a R$ 1,0580/litro. Esta é a quarta queda consecutiva no preço mensal, que já acumula desvalorização de 13,2% desde janeiro. Na comparação com o preço registrado no mesmo intervalo do ano passado, a redução é ainda maior, de 30,7% (valores reais deflacionados pelo IPCA de setembro de 2017).

Por outro lado, os custos da atividade seguem praticamente estáveis. Segundo pesquisas mais recentes do Cepea, de julho para agosto, o Custo Operacional Efetivo (COE, que engloba os gastos correntes das propriedades) das fazendas modais do Rio Grande do Sul registrou ligeira variação de 0,09%. Quando analisada o índice acumulado de janeiro a agosto de 2017, o incremento é de 0,47%.
O aumento dos preços dos concentrados e dos combustíveis e a redução nos valores dos fertilizantes e defensivos agrícolas nos últimos meses têm estabilizado os custos, que iniciaram o ano em queda.
Com o avanço da safra, é esperado que a receita do produtor continue em queda nos próximos meses. Os custos, por sua vez, tendem a subir, acompanhando a elevação dos preços dos concentrados (milho e farelo de soja).
A análise mensal da relação de troca dos principais insumos usados na produção durante o ano, portanto, é essencial para a viabilidade econômica da atividade, além do acompanhamento dos custos de produção da propriedade.
Isso porque o menor preço de um insumo, em um determinado mês, pode não resultar no melhor momento para compra do produto se a relação com a receita não for favorável.
Sergio De Zen
Professor Dr. da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), e pesquisador responsável pela área de pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea)
Wagner H. Yanaguizawa
Analista da Equipe Leite do Cepea
cepea@usp.br

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