A expressão silagem de qualidade é reflexo das mudanças que aconteceram na pecuária de leite. De acordo com Jackson Silva e Oliveira e Pérsio Sandir D’Oliveira, pesquisadores da Embrapa Gado de Leite
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A expressão silagem de qualidade é reflexo das mudanças que aconteceram na pecuária de leite. De acordo com Jackson Silva e Oliveira e Pérsio Sandir D’Oliveira, pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, a introdução de tecnologias de manejo do rebanho e das pastagens foi marcante para essa evolução, porém a mudança mais importante que aconteceu foi em relação ao comportamento do produtor. “Hoje, ele (produtor) vê a produção de leite como um negócio e administra sua propriedade como se fosse uma empresa”, diz Oliveira.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (2012) consultou 272 produtores de leite de diferentes regiões do País e observou que aproximadamente 55% utilizavam a silagem de milho e 20% a de sorgo. Os outros 25% produzem outros tipos de silagem, principalmente a de capim e de cana de açúcar.

Embora existam tecnologias acessíveis para a produção das melhores silagens, até hoje muitos produtores ainda fazem silagem de má qualidade e perdem dinheiro com isso. No entanto, a produtividade dos animais e o custo do leite podem ser melhores ou piores em função da silagem. Segundo Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, uma silagem de qualidade depende, basicamente, de uma boa lavoura e um bom processo de ensilagem. Confira algumas orientações que podem melhorar os resultados na produção.

1 – Planejamento é fundamental

Fazer silagem de qualidade envolve custos, riscos e conhecimento. O processo exige rapidez, por isso é muito importante o planejamento. É necessário providenciar tratores, carretas, ensiladeiras e mão de obra em quantidade compatível com a área que será colhida e o número de silos da propriedade.

De acordo com Pérsio Sandir, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, a revisão e manutenção das máquinas e equipamentos devem ser feitas nas semanas que antecedem a data prevista para iniciar a colheita. Isso envolve a verificação das mangueiras, correias, níveis de óleo, engraxamento, afiação e regulagem das facas e contra-facas.

2 – Invista na lavoura

Os produtores de leite evoluíram bastante na produção de silagem, mas as lavouras ainda não atingiram seu potencial máximo. “Mesmo que o processo de ensilagem seja muito bem feito, se a matéria prima for de baixo valor nutritivo, a silagem também será pobre em nutrientes”, diz Oliveira. “O consumo das vacas será menor e a produção de leite vai ficar abaixo do potencial de produção dos animais.”

Segundos os especialistas, o erro dos produtores é manter uma lavoura pensando que aquilo é somente o alimento das vacas em tempo de seca, quando na verdade a silagem é parte importante dos negócios. “As lavouras para silagem devem ser tratadas para atingir alta produtividade e a participação de grãos”, afirma Sandir. Ele ainda afirma que vale a pena o produtor investir R$ 2,2 mil por hectare, que é o valor médio para conseguir uma boa lavoura de milho e conseguir entre 45 e 50 toneladas de forragem de bom valor nutritivo.

3 – Produtor de leite também precisa ser agricultor

O objetivo, tanto na plantação de milho ou sorgo, deve ser uma boa lavoura, com cultivo e manejo como se fosse para a produção de grãos. Por isso, é importante que o produtor de leite também seja agricultor. “Na grande maioria das vezes, o conhecimento e experiência de um produtor de grãos são maiores do que o produtor de leite”, diz Oliveira “Daí, talvez, o porquê da maioria das lavouras para silagem não se desenvolverem tão bem como as destinadas à produção de grãos.”

Uma opção indicada pelo pesquisador para resolver problemas técnicos é optar por serviços terceirizados. Algumas empresas já oferecem ensilagem de milho terceirizada, assim como serviços para plantar e conduzir as lavouras. “A produção de forragem ficará a cargo de técnicos que dominam essa prática e o produtor poderá tirar essa preocupação da cabeça para se dedicar ao que mais sabe fazer, cuidar das vacas e produzir leite”, diz Oliveira.

4 – Tenha cuidado com o solo

Conhecer o solo da propriedade é essencial para obter um bom retorno. O pesquisador diz que, por incrível que pareça, muitos produtores ainda não fazem análises rotineiras de suas áreas de lavoura. “Essa informação é extremamente necessária para que o solo seja corrigido sempre que necessário, que a lavoura receba os nutrientes na forma e quantidades necessárias e para que as plantas os utilizem de forma eficiente”, afirma Oliveira. “Além da adubação tradicional, lavouras visando silagem de alta qualidade devem sempre receber adubação foliar cujo objetivo principal é suprir microelementos.”

O pesquisador explica que essa adubação é realizada entre os estágios V6 e V8, quando as plantas estão com seis e oito folhas. Outro recurso que vem sendo bastante utilizado é a aplicação de fungicida junto com a adubação foliar. “O objetivo não é combater fungos, mas estimular a produção de etileno na planta, o que vai resultar em um ligeiro aumento do ciclo e da janela de corte, além de melhorar a produtividade”, afirma Oliveira.

5 – Como preparar o solo

O preparo do solo pode ser o convencional, envolvendo aração e gradagem, ou direcionado para o plantio direto. O plantio direto é, de longe, o sistema mais eficiente pela série de benefícios que trás ao melhorar a estrutura do solo, manter sua umidade, minimizar a compactação e o uso de herbicidas. Segundo Sandir, são necessários conhecimentos sobre as coberturas verdes mais indicadas para região, métodos de dessecamento e plantadeiras específicas para o sistema de plantio direto.

6 – Como escolher o híbrido que será plantado

Ao escolher o híbrido para a silagem, o produtor deve buscar aqueles que produzam bastante grão e que sejam bem adaptados à sua região e às condições de manejo que irá dedicar à lavouras, dando preferência aos de grãos mais macios. No caso de híbridos transgênicos, o produtor deve saber como implantar e manejar as áreas de refúgio. “É muita informação e muito conhecimento a ser dominado pelo produtor de leite. Se ele não tem esse domínio, é recomendável contratar a assistência de um consultor agronômico”, afirma Sandir.

7 – A colheita ideal para ensilagem

A colheita para ensilagem envolve uma série de operações. O corte das plantas na lavoura, seguido de picagem, descarregamento nas carretas transportadoras e o descarregamento destas no silo.  A altura de corte, seja do milho ou sorgo, é entre 15 e 25 centímetros. Usar alturas menores que quinze pode causar a contaminação da forragem com terra ou mesmo permitir a entrada de pedras que podem danificar a picadeira, explicam os especialistas.

O tamanho do corte depende de vários fatores. Além do tipo de engrenagem usada para definir o tamanho da partícula, do afiamento das facas e do seu espaçamento com a contra-faca, o teor de matéria seca (MS) das plantas e a velocidade do trator podem interferir no tamanho e na qualidade do corte. “O produtor deve, inicialmente, seguir as recomendações do fabricante e deixar a ensiladeira devidamente regulada”, diz Oliveira. “Após colher os primeiros cinco ou 10 metros, ele deve parar o equipamento e verificar se a picagem está sendo feita dentro do esperado.” A orientação é para que as facas sejam afiadas pelo menos duas vezes ao dia durante a colheita. Facas cegas rasgam e dilaceram a forragem, dificultando a compactação e aumentando as sobras no cocho.

A porcentagem de MS da lavoura pode ser determinada facilmente picando algumas plantas e usando um forno de micro-ondas, ou um determinador de umidade tipo Koster, e uma pequena balança digital. As orientações para fazer as determinações com micro-ondas estão na Circular Técnica 77, que pode ser visualizada ou baixada para impressão no site da Embrapa Gado de Leite.

8 – Aprenda as técnicas de ensilagem

O processo de ensilagem, da colheita ao fechamento do silo, deve ser feito de forma rápida. Segundo Oliveira, o ideal é que o silo seja cheio e fechado em apenas um dia. Um dos pontos que compromete uma silagem de alta qualidade é o momento da colheita. De acordo com Oliveira, colher com a umidade correta facilita a fermentação, facilita a picagem e a compactação, e diminui as perdas. “A umidade da forragem, ou sua porcentagem de matéria seca (MS%), é o fator que determina o momento da colheita. Ela deve ser feita quando o teor de MS da forragem estiver entre 30 e 35%, ou entre 65 e 70% de umidade.”

9 -Ensiladeiras de automotriz

As ensiladeiras do tipo automotriz disponíveis no mercado fazem a colheita com muito mais rapidez e picam a forragem com mais perfeição, de acordo Sandir, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Além disso, a maioria dessas máquinas é equipada com “craker”, um equipamento que esmaga o grão, facilitando o aproveitamento do amido pelos animais. Segundo ele, essas colhedeiras são caras e a maioria delas é de empresas que fazem serviço de terceirização, de cooperativas para uso comunitário ou de grandes produtores.

A padronização do tamanho das partículas e a quebra dos grãos proporcionada pelo “cracker” da automotriz são diferenciais importantes para qualidade da silagem. Devido à rapidez com que essas máquinas trabalham, ao fazer a colheita com uma automotriz o produtor deve contar com um maior número de carretas ou caminhões transportadores. Devido à alta velocidade de descarga da forragem no silo é necessário um maior número de tratores para garantir uma boa compactação.

10 – Saiba quais são os silos mais utilizados

Os silos mais utilizados são os do tipo trincheira, com paredes laterais, e os de superfície. Segundo os especialistas, a compactação nos silos trincheira é mais fácil e eficiente. Além de reduzir perdas, o processo de enchimento é mais rápido nesse tipo de silo. Os silos trincheira são mais caros, pois exigem movimentação de terra, material e mão de obra durante sua construção. Uma vez construído, ele não poderá mudar de lugar e nem poderá ter suas dimensões alteradas, explica Oliveira.  “Ao planejar a construção de silos trincheira, devem ser levados em consideração o local onde será construído, a facilidade de acesso e a capacidade de armazenamento que deve ser em função do rebanho atual, mas sem esquecer os possíveis planos para o futuro”.

Os silos de superfície são de baixo custo e podem, em cada ano, serem instalados em locais diferentes ou não. Ao contrário do silo trincheira, ao acabar a silagem o silo também desaparece. Sua principal desvantagem é a dificuldade para uma compactação eficiente devida a falta de paredes laterais. Por essa razão, as perdas observadas em silos de superfície são maiores.

11 – Evite contaminação durante o descarregamento

Durante o descarregamento da forragem no silo é comum o tratorista avançar sobre o silo para descarregar a nova forragem sobre aquela que já foi compactada. Isso pode gerar um problema principalmente quando os pneus do trator e carreta chegam enlameados. “Ao fazer isso sucessivas vezes, a forragem estará sendo contaminada de micro-organismos indesejáveis que irão comprometer a qualidade da silagem. O mesmo acontece quando os tratores usados para transportar a forragem são os mesmos usados para compactação”, diz Sandir.

12 – Como garantir uma compactação bem feita

Nos silos tipo trincheira e de superfície, o enchimento é feito em camadas e começa pelo final do silo. O trabalho em cada camada é muito importante para que a compactação fique bem feita. Após o descarregamento, a forragem picada deve ser espalhada em uma camada de 20 centímetros sobre a rampa já compactada e somente após esse espalhamento a compactação deve ser iniciada.

A compactação sem o preparo da camada ou com camadas muito altas, maior que 20 centímetros, não fica bem feita, prejudica a qualidade e aumenta as perdas de silagem.  “Nos silos bem compactados, a silagem fermenta mais rapidamente e é menor a ocorrência de fungos e leveduras. Isso significa maior valor nutritivo, maior consumo, menor quantidade de perdas e maior economia de concentrado”, diz Sandir.

13 – É preciso vedar corretamente o silo

Após o enchimento do silo é necessário vedá-lo. Essa vedação é feita com lona de polietileno com o mínimo de 200 micras de espessura. “As de dupla face, com um lado branco e outro preto, são as mais indicadas e preferidas pelos produtores pelo fato de ser de manejo mais fácil e diminuir as perdas nas partes em que a silagem fica em contato com a lona”, diz Oliveira. Quando usadas, o lado branco deve ficar exposto para refletir a radiação solar e evitar o seu aquecimento e enfraquecimento.

Inicialmente, a lona deve ser estendida sobre o silo e, em seguida, fixada. A fixação deve começar pela parte detrás do silo. Nessa extremidade, a lona deve ser enterrada ou fixada no solo com uma cobertura de terra. Em seguida, a partir dessa parte já fixada, serão feitas a cobertura e fixação das extremidades laterais. “Isso deve ser feito ao mesmo tempo em que são colocados pesos sobre a lona, os quais irão forçá-la a ficar em contato com a silagem. Para essa função, pneus, sacos de areia ou mesmo terra podem ser colocados sobre a lona”, conta Sandir.  A fixação e colocação dos pesos devem ser feitas ao mesmo tempo, pouco a pouco, e sempre no sentido da parte traseira para a parte da frente do silo. O fechamento da extremidade final é feito da mesma maneira, enterrando a lona ou cobrindo-a com terra.

Quando se usa lona preta é preciso protegê-la do sol. Sem isso ela se enfraquece, torna-se mais permeável ao ar, o que aumenta a perda de silagem. Essa proteção pode ser feita com capim ou terra. Além do esforço a mais para colocar essa cobertura, a retirada desse material durante o período de utilização do silo também é trabalhoso.

Mesmo após o fechamento do silo, a forragem ensilada continuará “respirando”, pois um pouco de oxigênio sempre permanece no meio da forragem compactada. Somente após todo esse oxigênio residual ser “consumido” é que a fase de fermentação terá inicio. Uma boa compactação faz com que a fase de respiração seja bem curta e que a fase de fermentação inicie mais rapidamente. Ao final da fase de fermentação, a silagem estará estabilizada e pronta para o uso. Em silos de laboratório, essa estabilidade é alcançada entre seis e oito dias, mas em silos grandes, no campo, o período pode ser de 12 a 20 dias. Por garantia, recomenda-se manter o silo fechado pelo mínimo de 30 dias.

Campanha consumo de leite – A Campanha da 1ª Semana do Leite, prevista para ocorrer na primeira quinzena de novembro, foi o tema central da 18ª Reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), realizada nesta sexta-feira (17).

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