Em entrevista à Exame, presidente da Embrapa, Celso Moretti, detalha iniciativas que podem resultar em uma diminuição de até 25% na necessidade de importação de fertilizantes até 2030
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Em entrevista à Exame, presidente da Embrapa, Celso Moretti, detalha iniciativas que podem resultar em uma diminuição de até 25% na necessidade de importação de fertilizantes até 2030

Com necessidade de importar 85% dos fertilizantes usados em solo nacional, o Brasil se vê diante de uma situação delicada para a próxima safra, com a dificuldade para conseguir insumos da Rússia e de Belarus em meio à guerra na Ucrânia. Enquanto o governo federal busca alternativas em locais como Canadá e Irã, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) propõe iniciativas que podem eventualmente reduzir a dependência de fertilizantes de fora.

 

O presidente da Embrapa, Celso Moretti, conversou com a Exame sobre o assunto e detalhou algumas das ações que devem ser levadas adiante nos próximos meses. As frentes de atuação incluem otimização do uso de fertilizantes e investimento em novas tecnologias. A previsão é que, se o Brasil avançar de forma consistente em fontes alternativas de fertilizantes, seja possível reduzir em até 25% a necessidade de importação até 2030.

Leia os principais trechos da entrevista:

Qual o cenário que a gente encontra hoje no mercado de fertilizantes?

O Brasil hoje importa 85% dos fertilizantes que consome para a sua agricultura. No ano passado, o país consumiu 43 milhões de toneladas de fertilizantes. As três principais cadeias – soja, milho e cana de açúcar – consumiram 73%. O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, atrás dos Estados Unidos, da Índia e da China, e nós consumimos algo em torno de 8,5% a 9% de todo o produto no mundo. Só que esses outros três países são grandes produtores de fertilizantes, e o Brasil não.

E é da Rússia que vem grande parte desses fertilizantes, certo?

Quase metade do potássio consumido no Brasil vem da Rússia e de Belarus. Existe uma dependência brasileira muito forte da importação de fertilizantes. Obviamente que agora, quando tem um conflito como esse na região do leste europeu, principalmente na região onde está acontecendo, é muito preocupante. Vi uma reportagem dizendo que as empresas que fazem seguro de carga no Mar Negro não estão fazendo, porque é uma região que hoje está em guerra. Isso tudo causa bastante preocupação aqui no Brasil, em função do agronegócio responder por 26% do PIB brasileiro.

Você acha que existe risco de desabastecimento?

Acho que, por enquanto, não. Nós estamos colhendo a safra de verão ainda. Agora vamos começar o plantio da safra de inverno, que é a conhecida como safrinha, nos meses de março e abril. Quem ia plantar agora, na safrinha, já comprou seus adubos, que já vinham com preço crescente em função do que aconteceu ano passado, na crise energética na China, também um vendedor de adubo para o Brasil. Não vejo problemas no curto prazo.

Você mencionou que o Brasil não é um grande produtor de fertilizantes, que importa muito. Por que o país não produz tanto? Quais são as dificuldades? 

Tem uma série de razões. O Brasil fez a opção, e acho que isso já tem mais de quatro décadas, de canalizar o investimento do país para outras áreas que não a priorização de produção de fertilizantes. Temos a Petrobras, uma das maiores empresas de gás e óleo do mundo, mas há alguns anos a Petrobras não vem investindo na área de produção de adubos nitrogenados. E há questões naturais. O Brasil, em função do solo, da questão mineral, não tem grandes jazidas de fósforo e potássio. Temos uma jazida de potássio que fica no Amazonas, mas existem questões ambientais e legais que neste momento impedem a exploração.

Quais são as iniciativas da Embrapa no sentido de otimizar a produção de fertilizantes no país e diminuir a dependência do exterior?

Temos uma ação de curtíssimo prazo que deve iniciar na primeira quinzena de abril, a chamada Caravana Fert Brasil, uma caravana de pesquisadores e técnicos da Embrapa que vão visitar todas as regiões produtoras do Brasil, orientando os produtores a fazer melhor utilização dos fertilizantes que têm à sua disposição. O grande objetivo é aumentar a eficiência do uso de fertilizantes no Brasil.

Qual é o ganho esperado com essa ação?

Vamos poder aumentar essa eficiência de 60% para até 70% ainda em 2022, o que pode gerar uma economia da ordem de 1 bilhão de dólares para a agricultura brasileira no uso racional de fertilizantes. É uma medida de curtíssimo prazo que pode realmente ter um impacto significativo já na próxima safra de verão, que começa em setembro. Esse é o primeiro pilar, são dois pilares de ações que a Embrapa vai desenvolver este ano para apoiar a agropecuária brasileira.

Qual é o segundo pilar? 

O segundo pilar é o uso de um conjunto de tecnologias que vão reduzir a dependência de importação de fertilizantes. É um trabalho que já vem sendo feito e vai ser fortalecido. Esse segundo pilar tem alguns componentes. O primeiro é o uso de biofertilizantes. Em 2019, a Embrapa colocou no mercado brasileiro um biofertilizante chamado BiomaPhos. São duas bactérias que descobrimos que, quando você aplica no solo, elas atuam sobre o fósforo que está no solo e deixa o fósforo mais disponível para a planta. Com isso, o produtor tem que usar menos fosfato, menos adubo.

Esse biofertilizante já é bastante utilizado?

Na safra de 19/20 foram 300 mil hectares no Brasil com BiomaPhos. Na de 20/21, 1,5 milhão de hectares, e 21/22 a previsão é de 3 milhões de hectares. O segundo componente do segundo pilar é o uso do que a gente chama de fertilização de precisão, onde o produtor faz o levantamento do solo e vê onde que está faltando nutrientes na fazenda. Ao invés de aplicar o fertilizante de maneira uniforme, ele regula para aplicar a quantidade necessária em cada local.

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