A mastite bovina é uma das doenças mais estudadas atualmente, pois acarreta consideráveis perdas nos sistemas de produção de leite, além de impactos negativos sobre a qualidade e a eficiência de toda a cadeia industrial do leite.
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Situação atual da mastite no Brasil

A mastite bovina é uma das doenças mais estudadas atualmente, pois acarreta consideráveis perdas nos sistemas de produção de leite, além de impactos negativos sobre a qualidade e a eficiência de toda a cadeia industrial do leite. Na busca de reduzir estes impactos negativos, as ferramentas de controle evoluíram durante os últimos 50 anos de forma acentuada, o que permitiu que a grande maioria dos países desenvolvidos reduzisse de forma significativa a CCS dos rebanhos. Para exemplificar, a média de CCS dos rebanhos dos EUA foi de 178.000 céls./ml em 2020, cujo valor tem apresentado tendência clara de redução, desde a década de 1990. De forma similar, a Nova Zelândia teve média nacional de 173.000 céls./ml em 2020, com mesma tendência de redução. Por outro lado, no Brasil, a CCS média, com base em cerca de 237 mil fazendas avaliadas/mês em 2018, variou nas principais regiões produtoras entre 450.000 a 500.000 céls/ml, o que indica que há um grande oportunidade de redução de CCS, o que traria ganhos de eficiência e lucratividade para as fazendas.

Considerando este cenário atual de média de CCS dos rebanhos, é essencial que os produtores conheçam melhor as principais causas da mastite, para buscar usar as estratégias mais eficientes e adequadas para reduzir as perdas e custos associados com a mastite.

Diagnóstico das causas da mastite é uma das principais limitações para o controle

Um dos princípios do gerenciamento diz que “não se controla aquilo que não se mede”. Este conceito pode ser integralmente aplicado no caso do controle da mastite, pois sem uma boa rotina de monitoramento da mastite clínica e subclínica, o produtor tende a subestimar o tamanho do problema, as perdas e o total dos custos associados. Atualmente, por exigência legal, as indústrias de laticínios avaliam mensalmente o leite do tanque e fornecem estes resultados para as fazendas, o que permite ter uma avaliação da situação geral da mastite subclínica no rebanho. Tradicionalmente, o indicador de limite de CCS do tanque mais usado é 200.000 céls./ml, sendo que valor superiores indicam problema de mastite no rebanho e redução de bonificação do preço do leite.

Considerando a CCS média de 500.000 céls./ml do leite tanque das fazendas do Brasil, pode-se estimar que 4 de cada 10 vacas em lactação apresentam mastite subclínica, o que acarreta redução de produção de 5 a 8% por vaca/dia em comparação com as vacas sadias, de acordo com um estudo recente da nossa equipe. No entanto, considerando que uma parcela significativa das fazendas tem CCS >500.000 céls./ml, o impacto negativo sobre a lucratividade e, consequentemente, sobre a sustentabilidade da atividade são ainda maiores.

Sendo assim, o primeiro passo para sucesso no controle de mastite é implantar uma rotina mensal de monitoramento de CCS individual das todas as vacas em lactação, assim como de detecção da mastite clínica (teste da caneca de fundo preto) antes de todas as ordenhas. Com base nestes indicadores é possível medir o tamanho do problema, estimar as perdas e custos, além de justificar a necessidade ou não de implantar medidas mais específicas para o controle da mastite.

Após a etapa inicial de identificação das vacas com alta CCS e com mastite clínica, cada fazenda pode definir as prioridades com base na situação encontrada. No entanto, para a tomada de decisões sobre quais são as medidas mais adequadas é essencial conhecer as causas da mastite, o que demanda a realização de testes de cultura microbiológica, pois não é possível saber a causa da mastite somente com base nas características ou sintomas. Atualmente, o teste da cultura microbiológica pode ser feito em laboratórios especializados como o Qualileite-USP ou pela cultura microbiológica na própria fazenda. O conhecimento das causas da mastite é indispensável para identificar as prováveis fontes de transmissão (contagiosa ou ambiental), decisões sobre segregação ou linha de ordenha, escolha de protocolos de tratamento durante a lactação, descarte de vacas e monitoramento da secagem.

Quais são as principais causas da mastite nas fazendas?

Conhecer as causas da mastite é fundamental para a boa tomada de decisões. Atualmente, um dos bancos de dados mais completos das causas de mastite no Brasil é o da comunidade de Onfarmers, que recentemente atingiu cerca de 900 rebanhos, totalizando dados de cultura na fazenda de cerca de 114 mil casos de mastite clínica e 70 mil amostras de mastite subclínica, durante os anos de 2019-2021.

Com relação aos dados de mastite clínica, cerca de 39% das amostras não têm isolamento de microrganismos (resultado negativo), enquanto que bactérias Gram-negativas representam 12% e as Gram-positivas 45% do total de amostras (Figura 1).

grupos de agentes causadores de mastite clínica

Figura 1 – Distribuição de principais grupos de agentes causadores de mastite clínica (2019-2021), com base em 113.800 casos clínicos, 900 rebanhos localizados em 22 estados do Brasil. Fonte: Relatório Saúde do Úbere, Onfarm, junho/2021.

Quando se avalia somente os resultados positivos (excluindo-se os negativos e contaminados) dos casos de mastite clínica, verifica-se que Strep. agalactiae/dysgalatiae representou cerca de 28% e Staph. não-aureus e Strep. uberis 15% (Figura 2).

Frequência de principais agentes causadores de mastite clínica

Figura 2 – Frequência de principais agentes causadores de mastite clínica (2019-2021), com base em 65.900 amostras, excluindo-se amostras negativas e contaminadas. Fonte: Relatório Saúde do Úbere, Onfarm, junho/2021.

Os dados sobre as causas de mastite subclínica indicam que do total de 79 mil amostras analisadas, 39% são amostras sem isolamento de microrganismos. Considerando o restante das amostras positivas (cerca de 47 mil), os principais agentes encontrados são Staph. não-aureus (27%), Strep. agalactiae/dysgalatiae (25%) e Strep. uberis (15%).

Frequência de principais agentes causadores de mastite subclínica

Figura 3 – Frequência de principais agentes causadores de mastite subclínica (2019-2021), n=46.968, excluindo-se amostras negativas e contaminadas. Fonte: Relatório Saúde do Úbere, Onfarm, junho/2021.

Conhecendo mais sobre Strep. uberis

Strep. uberis é considerado um dos principais agentes causadores de mastite, cuja forma de manifestação pode ser clínica ou subclínica, assim como pode ter transmissão tanto a partir do ambiente (principal), quanto pela via contagiosa. Além disso, Strep. uberis causa mastite tanto nas vacas em lactação quanto durante o período seco. Em razão destas características, diferentemente de outros estreptococos contagiosos como Strep. agalactiae que pode ser erradicado, o controle de Strep. uberis ainda é um grande desafio nas fazendas, principalmente por meio de medidas de higiene para redução da contaminação dos tetos e pelo aumento da capacidade de resposta imune das vacas.

Este microrganismo faz parte do grupo dos “estreptococos ambientais”, composto por bactérias Gram-positivas, com ampla distribuição no ambiente e de adaptação nutricional. O grupo dos “estreptococos ambientais” ainda é formado por bactérias do gênero Enterococcus e Lactococcus.

Dentre as caraterísticas principais do Strep. uberis, destaca-se a alta variabilidade genética e grande capacidade de produção de fatores de virulência, sendo que já foram identificados pelo menos 13 destes fatores. A alta variabilidade genética de Strep. uberis permite que esta bactéria seja altamente adaptável e também que possam existir diferentes clones dentro de um mesmo rebanho, o que pode facilitar a transmissão tanto a partir do ambiente, quanto a partir de vacas infectadas pela via contagiosa.

Por outro lado, a existência de inúmeros fatores de virulência, como a capacidade de produção de toxinas, formação de biofilmes e cápsula de exopolissacarídeos, e a capacidade de adesão nas células mamárias permite que este agente possa se apresentar tanto na forma clínica quanto subclínica. Além disso, Strep. uberis tem alto risco de produzir infecções crônicas, pois possui alta capacidade de penetração nos tecidos internos da glândula mamária e baixa resposta aos tratamentos com antibióticos.

Transmissão principal é a partir do ambiente, mas pode ocorrer pela via contagiosa

Classicamente, o reservatório das bactérias causadoras de mastite ambiental é o próprio local onde a vaca se encontra, em especial pela contaminação da extremidade dos tetos por esterco e matéria orgânica, o que aumenta o risco de novos casos de mastite. Por outro lado, o reservatório dos agentes contagiosos é o quarto mamário das vacas infectadas, sendo que neste caso a transmissão ocorre pelo leite contaminado. Esta antiga classificação ainda é muito útil, pois permite identificar os pontos mais críticos que devem ter prioridade no controle da mastite ambiental e contagiosa.

Escala comparativa de classificação entre agentes causadores de mastite contagiosa e ambiental.

Figura 4- Escala comparativa de classificação entre agentes causadores de mastite contagiosa e ambiental. Zadocks e Schukken, Encontro Anual NMC, 2003.

Os estudos indicam que a maioria das cepas de S. uberis têm origem no ambiente e são consideradas como não adaptadas. Estas cepas de origem ambiental podem ser isoladas de diversos locais, como em amostras de esterco e cama. Predominantemente causam mastite clínica de curta duração (média de 12 a 17 dias), tanto em vacas secas quanto nas em lactação. A ocorrência de mastite causada por S. uberis em vacas secas e novilhas indica a transmissão ambiental, visto que estas categorias de animais não são submetidas à ordenha. Neste cenário, quando várias vacas de um mesmo rebanho são infectadas por cepas diferentes de S. uberis a via transmissão desta infecção deve ter ocorrido a partir do ambiente.

No entanto, algumas fazendas podem ter uma cepa dominante que infecta diferentes vacas e em alguns casos diferentes quartos da mesma vaca o que indicaria a transmissão de vaca para vaca, caracterizando o S. uberis como um agente contagioso. Nesta situação, as cepas são mais adaptadas e causam predominantemente mastite subclínica de longa duração (média de 70 dias), o que aumenta o risco de transmissão contagiosa, já que o tratamento com antibióticos tem baixa taxa de cura.

Em termos gerais, este duplo padrão de transmissão do S. uberis torna este agente difícil de ser eliminado do rebanho. Sendo assim, o controle do S. uberis deve ser baseado tanto em medidas para a reduzir a contaminação dos tetos (melhoria de higiene de ambiente, manejo de camas, adequar lotação, frequência de limpeza, manejo de ordenha: pré-dipping, secagem de tetos), quanto de prevenção da transmissão do agente de vaca para vaca (desinfecção dos tetos, tratamento de vaca seca, segregação das vacas infectadas e manejo de ordenha adequado).

O controle de mastite por Strep. uberis requer especial atenção no período seco, pré-parto e início de lactação, quando há alto risco de mastite ambiental causada por este agente. Por exemplo, a maioria das mastites clínicas no 1º mês de lactação tem origem logo após a secagem e no período pré-parto, quando há maior risco de contaminação dos tetos a partir do ambiente. Sendo assim, as medidas de controle incluem um adequado protocolo secagem, de acordo com a produção da vaca, uso de selante de tetos e manejo de ambiente de vacas secas e da maternidade e mais recentemente, o uso de vacinação.

Assuma o controle do Streptococcus uberis

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