De repente, o assunto virou o preço do leite, que disparou e chegou a patamares nunca antes alcançados, entre R$ 7 e R$ 10, acima até do litro da gasolina.
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Estiagem diminuiu qualidade do pasto e elevou preço dos grãos para alimentar o rebanho| Foto: Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo

A crise no setor lácteo, no entanto, não surgiu de maneira súbita. Foi se avolumando nos últimos três anos, num contexto de pandemia, alta do dólar e inflação, agravado pela seca na última safra e a guerra na Ucrânia. O custo do milho, principal prato bovino, foi às alturas, assim como o de outros itens que pesam na produção leiteira, como suplementação mineral, fertilizantes e combustíveis.

Fato é que todo esse cenário fez diminuir a oferta de leite no País em 10,3% no primeiro trimestre, ou 10 milhões de litros por dia. E os preços dispararam. Nos últimos doze meses, até maio – portanto, sem contabilizar a alta de junho – , o leite UHT em caixinha subiu 29,43% para o consumidor, os queijos 17,4%, o iogurte 20,4% e a manteiga 17,4%, todos acima da inflação medida pelo IPCA, de 11,7%.

As contas, no entanto, apertaram primeiro para o lado do produtor de leite, antes de apertar para o consumidor. Isso fica claro quando se olha para a relação de troca do leite com os insumos.

Mais de 40 litros de leite para comprar um saco de milho

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/Usp) mostram que em 2019 o pecuarista precisava produzir 28 litros de leite para comprar uma saca de 60kg de milho. Em 2020, o valor médio anual subiu para 34 litros por saca e, em 2021, chegou a 43 litros por saca. Este ano começou com um pico de 45 litros/saca. Os recentes recuos no preço dos grãos, combinados com alta no preço pago ao produtor, trouxeram a relação de troca para 35 litros de leite por saca de milho. Mas a média do ano ainda está elevada, em 41 litros por saca.

“Se comparar com 2019, o produtor perdeu 46% do poder de compra que tinha frente ao insumo. Trocando em miúdos, ficou mais caro alimentar o rebanho, ficou mais caro fazer desembolso desse manejo nutricional. Então, o produtor acaba diminuindo os investimentos na atividade como um todo”, avalia Natalia Grigol, pesquisadora do Cepea.

Para evitar prejuízo, produtor vendeu vacas para o abate

Quem confirma essa redução dos investimentos é o produtor de leite Jônadan Ma, de Uberaba, uma das maiores bacias leiteiras do país. Diante da alta dos custos, Jônadan, como muitos pecuaristas, resolveu mandar para o abate fêmeas com menor produtividade, aproveitando o preço valorizado da arroba do boi. “Reduzi a operação para que o prejuízo fosse menor. Fiz leilão, vendi parte do gado, abati fêmeas. E essas vacas, ainda que menos produtivas, têm um peso enorme no montante da produção vendida ao mercado. É o que explica também essa queda de 10,3%. Quanto mais cabeça comendo, mais prejuízo para o produtor”.

O setor sente hoje os efeitos de fatores climáticos adversos de meses atrás. A seca do último ciclo, que já tinha prejudicado as pastagens, impacta também agora, na entressafra, por que a silagem de menor qualidade se traduz em menor conversão em leite. Jônadan reclama de falta de solidariedade dos laticínios e dos supermercados. “No ano passado, o consumidor pagava 4 a 5 reais no litro de leite e essa margem poderia ser passada em parte para o produtor, para ele suportar o período de crise de aumento de custos, mas não aconteceu. Aí o produtor não tinha o que fazer, a não ser de desfazer do plantel, matar matriz e reduzir o nível tecnológico. E, claro, a produção diminuiu”.

Margens estreitas pressionam os pequenos produtores

A atividade de produção de leite no Brasil é uma das mais pulverizadas. O IBGE estima 1,1 milhão de produtores, dos quais 70% são pequenos, que extraem até 50 litros de leite por dia, muitos exercendo a atividade como fonte secundária de renda. Todo o setor vem sendo pressionado desde 2020 pelo aumento sucessivo do Custo Operacional Efetivo, medido pelo Cepea. Só no último mês surgiram os primeiros sinais de queda.

O cenário envolve mudanças mais profundas do que uma mera variação sazonal na oferta. Em outros períodos de vacas magras, um movimento normal do mercado seria o pequeno produtor vender o rebanho para outro pecuarista, e as vacas continuarem produzindo. Natalia Grigol diz que o relato de Jônadan, do Triângulo Mineiro, se repete por todo País. “Nesse último ano, por conta do aumento muito forte nos custos de produção de leite e devido à alta do preço da arroba de carne, muitos produtores não só deixaram a atividade, como também mandaram os animais para o abate”, afirma. É o “adeus às mimosas” que estão mais perto do final do ciclo produtivo ou são de gado misto, que entrega pouco leite.

Os dados oficiais devem aparecer no próximo censo do IBGE, que começa o levantamento em agosto, mas a Federação da Agricultura de Santa Catarina estima que pelo menos nove mil produtores abandonaram a atividade leiteira durante a pandemia. No início da década de 90 eram 75 mil produtores no estado, hoje já seriam apenas 24 mil. Sem o leite, que cumpre um fator social importante – é dinheiro que “pingava” todo mês na propriedade – os produtores têm de apostar em outra atividade econômica, vender ou arrendar as terras.

Vai levar tempo ainda para normalizar oferta

Relatos da indústria sobre a queda dos volumes captados confirmam o enxugamento da atividade no país. O envelhecimento dos pecuaristas e a dificuldade de mão de obra são outros fatores que também estão empurrando mais gente para fora da atividade, segundo Ronei Volpi, presidente da Comissão de Bovinocultura de Leite da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA).

No curto prazo, para o consumidor, não há perspectiva de diminuição de preços do leite, porque deve levar algum tempo para normalizar a oferta. A entressafra, que está terminando no Sul e apenas começando no Sudeste, coincide com a época de maior consumo, no inverno. Segundo Volpi, as indústrias ainda “estão desesperadas atrás de leite, fazendo leilão com os produtores”.

“A gente espera voltar a uma certa normalidade no segundo semestre, mas o realinhamento de preços deve seguir. A inflação é mundial, os Estados Unidos estão com índice de quase 10%. Tem também as consequências da guerra, os fertilizantes, que dobraram de preço, e assim por diante. O leite não vai voltar a custar 2 ou 3 reais”, afirma Volpi. Ele também é crítico do desbalanço na cadeia produtiva. “Os produtores estão recebendo R$ 2,80 ou R$ 3,00 no máximo. E o leite chega no mercado a R$ 7,00 ou R$ 8,00. Aquela fatia de leão do varejo não cai nunca”.

Auxílio Emergencial estimula o aumento no consumo

Apesar do cenário macro adverso, na ponta do consumo há sinais de reação. Guilherme Sousa Dias, assessor técnico da CNA, observa que o Auxílio Emergencial do governo tem efeito direto no consumo de lácteos. “A pecuária leiteira é praticamente voltada para o mercado nacional. Se a economia vai mal, os preços vão mal também. Essa injeção de recursos, de 7,4 bilhões de reais em abril, pagos à população em situação emergencial, afetou positivamente a demanda.”

As vendas começaram a crescer no atacado. Jessica Olivier, analista de mercado da Scot Consultoria, sugere uma explicação. “O nível de desemprego está caindo, o que leva o consumidor a consumir mais os derivados, não só o leite, principalmente nas camadas mais pobres. Mas o preço do leite ainda não deve baixar. As pastagens vão demorar alguns meses, até outubro e novembro, para melhorar de novo, com as chuvas”. Quanto à oferta, a tendência é de os médios e grandes compensarem os que foram embora, pela elevação da produtividade. “Os pequenos produzem de 15 a 20 litros de leite ao dia, por vaca. Os produtores maiores conseguem 40 litros por dia”, sublinha Jessica Olivier.

Produtor pede explicações dos laticínios e dos supermercados

Para o pecuarista Jônadan Ma, não há muito que os consumidores e produtores de leite possam fazer. “Tanto nós como os consumidores somos tomadores de preço, não dizemos quanto vamos receber ou pagar. Queremos a cadeia funcionando de uma forma ganha-ganha, mas a conta sempre tem arrebentado nas duas extremidades. O consumidor paga caro e o produtor ganha pouco. Alguém no meio está ganhando muito. É essa conta que eu faço, curta e grossa”.

A reportagem fez contato com a Associação Brasileira do Supermercados (Abras) e tentou ouvir a Viva Lácteos, que representa os laticínios, para avaliarem o cenário atual dos preços do leite. Até o fechamento do texto, não houve retorno. O espaço segue aberto.

País está entre líderes globais na produção de leite

A produção de leite no Brasil é de 35,4 bilhões de litros por ano, a terceira maior do mundo. Em 2020, o país ordenhou 16,1 milhões de vacas, com uma média de produção de 2.192 litros por vaca/ano. A média é puxada pelos estados do Sul, todos com produção de mais de 3500 litros/vaca/ano, e que respondem por 51% da produção nacional, liderada por Minas Gerais, com 27% do total.

Valorização está relacionada ao forte aumento do custo de produção por conta da forte estiagem sofrida no Brasil.

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